domingo, 10 de maio de 2009

Instituto de Química da UFBA - O Prejuízo Pode Ser Ainda Maior!

Conforme noticiado, um incêndio ocorrido em 21 de março de 2009 destruiu significativo número de laboratórios de ensino e pesquisa do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (IQ-UFBA), deixando a instituição sem condições de operação normal. O prejuízo causado pelo fogo, a despeito do seu enorme valor, não deverá ser único. Laboratórios de pesquisa, com equipamentos de elevado valor financeiro, alguns muito recentemente importados, estão sujeitos a uma deterioração rápida, significativa e, lamentavelmente, inexorável. Além de um animus/anima interno profundamente abalado.

O prédio do IQ-UFBA possui 5 pavimentos, cada nível aproximadamente associado a cada um dos seus departamentos e um destinado, essencialmente, a atividades administrativas. O maior dano ocorreu no quinto andar, correspondente ao Departamento de Físico-Química. Severos danos ocorreram no quarto andar (Departamento de Química Analítica) e, aparentemente com menor intensidade, nos andares abaixo, que compreendem o Setor Administrativo, e os departamentos de Química Inorgânica e de Química Orgânica, nesta ordem.

Passados os primeiros momentos, com a natural mistura de atitudes e de humores, que vão do heroísmo à revolta, do susto à letargia, e do lamento à vontade de reconstrução, é possível melhor avaliar a presente situação. Providências mais óbvias e simples, que compreendem a instalação provisória de setores administrativos em outras unidades da UFBA, coleta de documentos mais sensíveis como os contábeis e o planejamento das aulas teóricas e a sua relocação foram já tomadas ou estão em fase de finalização. Restam, de mais difícil decisão face à sua exeqüibilidade, as aulas práticas, notadamente as de cursos de graduação. Mas, mesmo com relação a estas, providências urgentes são necessárias, afinal de contas a Química é uma ciência experimental. No que se refere aos cursos de pós-graduação as providências adotadas pelo Colegiado foram rápidas: redirecionamento de algumas etapas dos trabalhos previstos, encaminhamento de estudantes a outros centros de pesquisa que disponibilizaram seus recursos materiais e humanos, etc. Claro que não se poderá encaminhar todos os estudantes de PG para outras instituições. As soluções serão, necessariamente, numa base caso-a-caso e estão sendo buscadas.

Há, contudo, um espaço de vácuo nas decisões até então tomadas. E este vácuo compreende, essencialmente, os equipamentos mais sofisticados que a instituição dispõe - destinados à pesquisa e também ao ensino numa etapa mais sofisticada, tanto de graduação como de pós-graduação. Ainda que, inicialmente, tenha sido facultada a presença de responsáveis por laboratórios, e de seus assessores mais próximos, às instalações do primeiro e segundo andares e parcialmente às do quarto andar, para a adoção de providências elementares como a cobertura por mantas de plástico em alguns equipamentos e a coleta de reagentes e produtos que poderiam ser de algum maior dano potencial, surpreendentemente, este acesso foi suspenso. Assim, decorridas duas semanas do sinistro, não se tem um plano estabelecido, amplamente divulgado, seqüenciado temporalmente para a adoção das medidas que, caso-a-caso, os equipamentos exigem. Há um clima de profunda preocupação por parte dos responsáveis pelos laboratórios de pesquisa. Não foi divulgado um plano de remoção e re-instalação de equipamentos, seja para o seu uso ou para a simples manutenção dos mesmos em condições de adequada preservação. Não existem datas predefinidas para a avaliação das condições dos equipamentos, não foi explicitada a estratégia para a progressiva ativação dos circuitos elétricos que possibilitaria, pelo menos, o estabelecimento de condições mínimas necessárias de temperatura e de umidade para valiosos equipamentos. A possibilidade de “quenching” do Espectrômetro de RMN é apenas um exemplo, muito ilustrativo e emblemático, mas não o único. A instituição universitária, além de empresas e órgãos outros em funcionamento no Estado da Bahia, conforme demonstrado no mesmo dia do sinistro, possuem plenas condições para o trato de rejeitos e para a sua adequada manipulação e destinação final, sob parâmetros de plena segurança. Uma simples questão de decisão, expedita e equilibrada, diante de uma crise. A perícia, necessária e usualmente demandante de tempo, não só pode como deve ter o seu espaço de atuação preservado, mas este se restringe aos locais onde o fogo teve início e posteriormente se propagou. Assim, há plenas condições para um acesso controlado e planejado aos demais locais. A demora para a adoção de providências relativas aos equipamentos não afeta apenas os pesquisadores do IQ-UFBA mas também a seus colegas de outras unidades da UFBA, conhecedores das dificuldades que são inerentes para o planejar, o instalar e o operar laboratórios de pesquisa - uma solidariedade que advém do pleno conhecimento do ofício de ser um pesquisador. O Instituto Nacional de Tecnologia em Energia e Ambiente, liderado por pesquisadores da UFBA e envolvendo pesquisadores de várias outras regiões do país exemplifica bem estas dificuldades. Pesquisas em andamento foram interrompidas, projetos foram alterados, prazos necessariamente dilatados - tudo isto necessitando de revisão e de redefinição à luz de um essencial calendário de providências.

Vale observar que o IQ-UFBA possui um número significativo de pesquisadores com inserção nacional nas diversas áreas da Química. Entre estes estão dois pesquisadores nível I-A do CNPq, um pesquisador nível I-C e 9 pesquisadores nível II - uma condição sem paralelo na UFBA.
É preciso compreender que a condição de emergência não se encerrou com os trabalhos dos bombeiros. A ação de dano, causada pela demora em se encarar a totalidade dos problemas pode ser muito grave. Corre-se, assim, o risco de que a pesquisa sucumba à burocracia, esta mais atenta a minudências meramente formais, típicas dos cartórios.

Texto de Caio Castilho, professor do Instituto de Física da UFBA, no dia 06/04/2009 ao Jornal da Ciência - SBPC.

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