A sabedoria popular ensina que, em sendo encontrada uma vaca no alto de uma árvore, que se faça a pergunta sobre quem a colocou lá e com que interesse. Isto porque este inusitado fato não deve ser uma mera coincidência, mas algo deliberadamente realizado, com um objetivo bem definido, que justamente dá suporte ao esdrúxulo.
Nesta quinta feira, 21 de maio, o Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (IQ-UFBA) completa dois meses de interdição, após um incêndio que ocorreu em parte do último andar de prédio com cinco pavimentos. Desde então poucas providências práticas foram tomadas: inicial interdição completa para o acesso de pessoas, seguida de um acesso controlado onde o ingressante deve assinar termo de responsabilidade por desejar entrar em ambiente tido como inóspito, escoramento de porções da estrutura do quarto e quinto andares, recuperação das calhas para águas pluviais que haviam sido parcialmente danificadas e uma ainda não concluída limpeza dos restos da queima. O acesso controlado destina-se apenas a estudantes e pesquisadores, pois que os vigilantes, e até funcionários do IQ, circulam e permanecem no prédio sem maior controle. Seriam mais imunes ao alardeado ambiente inóspito? Nada ainda foi sequer iniciado visando restabelecer o funcionamento da rede elétrica. Com a excessiva umidade atual, o mofo começa a se propagar de modo generalizado, os equipamentos não se encontram em condições mínimas de conservação, alguns já claramente danificados. Não se tem ainda um calendário para a efetiva implementação das providências práticas efetivas. As aulas teóricas vem sendo ministradas, não ocorrendo o mesmo com as aulas práticas, que estão sendo precariamente ministradas. O descontrole e a inadequada gestão do problema são tão grandes que se chegou ao descalabro de interdição da rua em frente ao prédio, como se o mesmo estivesse ameaçado de desabar, o que evidentemente não ocorre. Não faltam, no entanto, comissões, pareceres supostamente técnicos e discursos ao lado de promessas vãs. A insuficiência das providências práticas necessárias só encontra paralelo no “mar” de ofícios e comunicados, tão do agrado da burocracia, que num vai-e-vem inútil resultam num pesadelo “kafquiano”.
O absurdo da circunstância remete à pergunta sugerida mais acima: A quem interessa este estado de coisas? A que serve este absurdo ou, talvez melhor, a quem serve? Certamente não serve aos 200 alunos de pós-graduação que estão sob ameaça de terem as suas bolsas canceladas ou pelo menos suspensas. Igualmente não serve à formação de alunos de graduação, cuja qualidade é também reflexo de boas aulas de laboratório. Não serve aos pesquisadores e professores com compromissos vários, previamente assumidos, com agências, empresas e instituições várias. Não serve, portanto, ao pleno exercício da atividade fim da instituição.
Logo após o incêndio, ocorrido em 21 de março, o Ministro de Ciência e Tecnologia, em visita ao local, se comprometeu a buscar alternativas e recursos no sentido de uma rápida e eficiente retomada das atividades no IQ-UFBA - a unidade da UFBA que reúne maior número de pesquisadores do CNPq. Não consta que hoje, dois meses depois, haja sequer um único pleito, devidamente formalizado e justificado, solicitando recursos àquele ministério.
A única resposta plausível a tanta insensatez e irresponsabilidade é que tudo isto, pelo seu absurdo, interessa a alguém ou a alguns. Candidatos a coveiros no caso abundam.
Caio Castilho é Professor do Instituto de Física da UFBA.
Texto publicado no JORNAL DA CIÊNCIA - SBPC.
Caio:
ResponderExcluirparabéns pelo seu texto brilhante! Foi no cerne da questão!
Jorge